Amistoso pra quem?
- Igor Schulenburg

- há 5 horas
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Há quem olhe para um troféu de intertemporada e enxergue apenas um intervalo entre um semestre e outro. Um torneio de preparação. Quilometragem para as pernas. Nada além disso. O Flamengo tratou diferente.
Desde os primeiros minutos contra o Benfica, ficou evidente que aquele não seria um amistoso protocolar. A entrada de Gianluca Prestianni em campo, carregando consigo a polêmica do episódio de conduta discriminatória denunciado por Vinícius Júnior na Champions League (no jogo entre Benfica e Real Madrid), mudou o clima. A torcida rubro-negra não esqueceu, e os jogadores deixaram claro que ele não teria uma tarde tranquila. As primeiras chegadas foram fortes, com Royal e Pulgar deixando o aviso. Com isso, os cartões apareceram cedo, e o jogo ganhou uma temperatura que amistosos não costumam ter. No entanto, reduzir a vitória a esse episódio seria injusto. O Flamengo foi superior.
Mesmo com a ausência de vários jogadores que retornam da Copa do Mundo, o time demonstrou organização, intensidade e, principalmente, profundidade de elenco. Samuel Lino confirmou sua boa fase, indicando que jogar mais centralizado pode, e deve, potencializar ainda mais seu desempenho. O treinador Jardim merece elogios por reconhecer isso e ajustar a posição de Lino, permitindo que ele atue como um meia ofensivo, participando ativamente da construção das jogadas, em vez de limitá-lo a um papel de ponta aberto.
Wallace Yan, que tem se destacado saindo do banco, refletiu sobre sua jornada: “O que aconteceu foi uma experiência de amadurecimento. Então, aprendi muito com o que aconteceu. Estou feliz por voltar a marcar gols. Passei por um período difícil, e só Deus sabe o que realmente aconteceu.” As palavras do próprio camisa 99. Leonardo Jardim parece ter encontrado respostas (ou pelo menos direções) cruciais em jogadores que talvez muitos nem considerassem como opções de elenco. Talvez esse seja o maior troféu da viagem para Portugal. Exemplos disso são Johnny, Joshua, o zagueiro Daniel Silva e Lorran.
Lorran também voltou a mostrar aquilo que sempre despertou expectativa. Contra o River Plate quase decidiu com um passe. Diante do Lausanne-Sport decidiu com um gol. Em Portugal, mais do que números, voltou a exibir confiança. E isso talvez tenha sido o principal ganho. Apesar da incerteza sobre sua permanência, o período em Portugal abriu novas possibilidades para o jovem meia.

O saldo da intertemporada vai além da conquista da taça do Algarve. O Flamengo retorna com mais opções do que quando partiu. Em três amistosos contra adversários de diferentes níveis, o time teve a oportunidade de observar jovens talentos, testar variações táticas, recuperar o ritmo de jogo e identificar quem pode ser uma peça importante quando os titulares não estiverem disponíveis. Isso se torna ainda mais relevante às vésperas da abertura da janela de transferências.
Em um mercado onde cada contratação precisa ser cuidadosamente avaliada, descobrir soluções internas pode ser tão valioso quanto contratar um reforço. Nem sempre a resposta está na Europa; às vezes, ela já treina no Ninho do Urubu. Vale ressaltar que não devemos esperar grandes contratações nesta janela de transferências. Como BAP mesmo afirmou em entrevista ao Canal do jornalista Venê Casagrande, no YouTube, talvez ainda não seja o momento de gastar por gastar.
O Benfica, adversário mais forte da excursão, jogava em Portugal. No entanto, quem parecia jogar em casa era o Flamengo, demonstrando isso pela arquibancada, intensidade, personalidade e, principalmente, pelo futebol. A imprensa portuguesa esperava um Benfica mais dominante, mas encontrou um Flamengo competitivo, que levou o jogo a sério do primeiro ao último minuto e, o que é melhor, com um padrão de jogo consistente. E ver jornalista português de mimimi pois não esperavam essa intensidade é no mínimo, dispensável.
Embora o Troféu do Algarve ocupe um espaço discreto na sala de troféus da Gávea, a confiança que o Flamengo trouxe na bagagem pode, e deve, valer muito mais do que o tamanho da taça.
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